Mineração

Em Congonhas, moradores viveram o carnaval da angústia e da revolta; em 8 segundos, lama da barragem pode chegar às suas casas

Da varanda, Alice aponta para a barragem Casa de Pedra, que está a apenas 250 metros de sua rua
(Foto: Patrícia Adriely)
João Carlos Firpe Penna e Patrícia Adriely
joaocarlos@interessedeminas.com.br | patricia@interessedeminas.com.br

Congonhas (MG) – O clima de Carnaval que tomou conta de grande parte do país nos últimos dias não foi, nem de longe, suficiente para reduzir a forte apreensão e o estado de alerta que vêm tomando conta dos cerca de 5 mil moradores que vivem em pelo menos três bairros da periferia do histórico município de Congonhas (MG).

E não era para menos. Essa expressiva parcela da população da cidade vive a apenas 250 metros de uma das maiores barragens de mineração do mundo localizada em área urbana. A diferença de altitude entre ela e as primeiras casas é de, aproximadamente, 70 metros. Isso significa que, em caso de um rompimento da barragem da CSN Mineração, a lama originada levaria apenas oito segundos para atingir as ruas dos bairros.

Foliões aproveitam o Carnaval no centro de Congonhas
(Foto: divulgação/Prefeitura de Congonhas)

Enquanto as primeiras marchinhas de Carnaval começavam a tomar conta da área central de Congonhas, na manhã de domingo, a reportagem do portal Interesse de Minas ouvia o relato de dezenas de cidadãos. Eles são moradores dos bairros localizados em áreas de risco, como Residencial Gualter Monteiro, Cristo Rei e Dom Oscar, na cidade que é mundialmente conhecida por abrigar as principais esculturas do mestre Aleijadinho.

Boa parte dos moradores se dividem entre os que estão tomando remédio para dormir, os que passam a noite em claro e os muitos que já abandonaram suas casas, arcando com aluguel e improviso em outros bairros mais seguros da cidade.

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‘Perdi a alegria do Carnaval’

“Eu não tenho motivo nenhum para sair para brincar no Carnaval. Perdi mesmo toda a alegria de fazer isso. É a conta de dar um relâmpago pra entrarmos em pânico. A gente não sabe de onde vem o estouro”, afirma Rosângela Geralda, umas das líderes comunitárias da região.

O sentimento dela era compartilhado por dezenas de vizinhos e amigos, todos apreensivos com o risco de rompimento da barragem Casa de Pedra. A apreensão passou a crescer desde 2015, quando houve o rompimento da barragem de Mariana, e tornou-se um verdadeiro pânico a partir de 25 de janeiro deste ano, com a tragédia de Brumadinho.

A equipe do portal Interesse de Minas apurou e viu de perto que essa sensação de angústia mistura-se com a de revolta pelo descaso com a população. Muitos reclamam, principalmente, da falta de informação por parte da empresa e de maior suporte da prefeitura local.

ENTENDA MELHOR

O Complexo da barragem Casa de Pedra (que inclui também as barragens B4 e B5)…

…  tem quase o dobro do tamanho da barragem de Bento Rodrigues, em Mariana, rompida em 2015, deixando 19 mortos).

… é quase 10 vezes maior que a barragem de Brumadinho, rompida em 25 de janeiro, deixando 193 mortos e 115 desaparecidos até o momento.

… foi alteado por jusante, método considerado mais seguro do que o adotado em Mariana e Brumadinho, cujas barragens foram alteadas por montante.

Capacidade de armazenamento

  • Congonhas (Complexo Casa de Pedra): 100 milhões de m³
  • Bento Rodrigues/Mariana (Fundão): 50 milhões de m³
  • Brumadinho (Barragem 1/Mina Córrego do Feijão): 12 milhões de m³
Arte: Hugo Cordeiro

ALERTA OFICIAL

Uma barragem de ‘alto risco’ e ‘elevado potencial’ de danos

O crescente temor dos moradores e ambientalistas de Congonhas faz todo o sentido. Na avaliação da própria Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD), a barragem é classificada como “Classe 6”, ou seja, “a mais alta em categoria de risco e de dano potencial associados”.

De acordo com a prefeitura, “Casa de Pedra é considerada uma das maiores barragens de mineração localizada em área urbana do mundo, possuindo atualmente um maciço com aproximadamente 80 metros de altura, com capacidade de acumular cerca de 75 milhões de metros cúbicos de rejeito”.

COMUNIDADE ALERTA

As ‘armas’ dos moradores

Nas ruas dos bairros, há muitas placas de sinalização sobre as rotas de fuga, mas elas não recebem essa denominação, certamente para evitar o clima de pânico. Elas indicam os trajetos mais rápidos até os singelos Pontos de Encontro, localizados nas áreas mais elevadas da região.

rosangela geralda
Rosângela Geralda, cantineira escolar

A reportagem percorreu o trecho de uma dessas rotas de fuga, partindo da casa de dona Rosângela Geralda até o Ponto de Encontro mais próximo. E constatou o absurdo dessa estratégia proposta pela empresa e pela Defesa Civil de Congonhas, em caso de rompimento da barragem.

Se isso ocorrer, dona Rosângela precisará ‘correr’ a uma velocidade média de 250 km por hora para chegar ao ponto mais próximo nos oito segundos previstos para a fuga. Segundo a orientação recebida, haverá transporte coletivo nesses locais para concluir a retirada das pessoas diante de uma tragédia.

Vale a pena comparar e fazer as contas: para estabelecer o atual recorde mundial da prova de corrida dos 100 metros rasos e tornar-se o corredor mais veloz do mundo, o jamaicano Usain Bolt chegou a uma velocidade de 45 km/h. Dona Rosângela e os milhares de vizinhos teriam de correr 5,5 vezes mais rápido, chegando à velocidade média dos mais modernos trens europeus (os mesmos 250 km/hora).

Certamente, os moradores nunca fizeram essas contas, mas, na prática, eles têm a clara noção do descaso das autoridades e da empresa ao estabelecer tal procedimento. Em um dos pontos de encontro, que fica em frente à escola Pingo de Gente, a placa indicativa do local foi arrancada duas vezes pelos moradores – até os responsáveis desistirem de recolocar a sinalização.

Placa indicativa de um dos pontos de encontro foi arrancada duas vezes
(Foto: Patrícia Adriely)

O marido de dona Rosângela, Ueder Paula Faria, revolta-se com essa realidade:

Ueder Faria, lanterneiro de automóveis

Essas placas foram colocadas ali só para inglês ver. Elas não valem de nada, pois não vai dar tempo de fazer coisa alguma. Deus deu uma vida só para cada um. Se você perder ela, acabou. Sabendo disso, por que eles foram armar uma armadilha dessa aqui, num bairro que tem três mil moradores dentro? Essa barragem é três vezes maior que a de Mariana. Se ela romper, será uma catástrofe mundial!

Outra forma encontrada pela população para se manifestar contra o descaso das autoridades e da empresa foi passar a apedrejar os ônibus da CSN que circulavam pelas ruas do Residencial para levar e trazer funcionários. A situação ficou tão grave que a empresa suspendeu a rota dos coletivos no bairro.

Escola e creche fechadas

Moradores não escondem também a revolta com a prefeitura, que fechou uma creche que tinha 130 crianças e uma escola com 150 alunos na região de risco. O prefeito Zelinho admite que foi pressionado por professores que estavam em pânico e não queriam mais trabalhar sob tanto risco.

Vejam o que diz dona Zeli Souza Carvalho:

zeli carvalho
Zeli Carvalho, dona de casa

Eles tiraram a escola e a creche daqui, mas de que adianta? A barragem, se estourar, vai matar só os pais? As crianças vão estar fora, dependendo da hora, mas quem vai cuidar delas depois? E se não for no horário de aula, vai matar todos do mesmo jeito. Essa foi uma solução pela metade. Se é para tirar daqui, tem de tirar tudo mundo.

Ela completa, relatando seu drama pessoal:

Diz que são 8 segundos. O que uma cega pode fazer em 8 segundos? Eu vou morrer dentro de casa.

Dona Rosângela também se refere a um suposto “momento final”, à luz das recentes cenas de Brumadinho, tão vivas na memória:

Depois que a lama tomar conta de tudo, eles não precisam vir com aquele tanto de helicópteros para achar os corpos. Podem deixar a gente enterrada aqui mesmo, onde é o nosso lugar.

À esquerda, a mina Casa de Pedra, que abriga barragem de mesmo nome; em amarelo, o bairro Residencial Gualter Monteiro
(Imagem: Reprodução/Google Earth)

POLÊMICAS

Alteamento e licenciamento

A reportagem conversou com o prefeito Zelinho, que fez um balanço do drama vivido pela cidade, e com o ambientalista e líder comunitário Sandoval de Souza Pinto Filho, diretor de Meio Ambiente e Saúde da União das Associações Comunitárias de Congonhas e ex-membro do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema).

Sandoval ressalta que o licenciamento não foi participativo nem preventivo, desprezando riscos e não levando em conta a presença dos moradores. E mostra os contrastes entre a riqueza que parte de Minas e a destruição que fica para as comunidades locais.

Zelinho, prefeito de Congonhas

Por sua vez, Zelinho relembra que firmou compromisso, ainda durante a campanha eleitoral, de não permitir o alteamento solicitado pela CSN para a barragem, ou seja, o pedido da empresa para elevar em 11 metros a altura da barragem em relação ao nível do mar, passando dos atuais 933 metros para 944 metros, o que aumentaria os riscos para a população. A empresa foi, portanto, impedida de fazer o alteamento.

Em nota, a mineradora afirma que está investindo R$ 250 milhões na tecnologia de empilhamento a seco, o que já cobre, segundo esclarecimento da assessoria de imprensa da CSN, 40% do volume de seus rejeitos. A nota diz ainda que, até o final deste ano, a empresa estará processando 100% do seu minério a seco, descartando a utilização de barragens para o processo produtivo.

Riqueza que vai; esgoto que fica

Sandoval de Souza Pinto Filho, diretor de Meio Ambiente e Saúde da União das Associações Comunitárias de Congonhas

A reportagem acompanhou Sandoval a um ponto simbólico na estrada entre Congonhas e Jeceaba, nos fundos da Casa de Pedra, onde duas vias se cruzam: a estrada de ferro e uma das canaletas de rejeitos da usina de beneficiamento, que descarrega rejeitos na barragem. Ele explica:

Aqui é um ponto importante para se entender o processo, ou seja, o cruzamento da ferrovia, que leva embora o que tudo vale, com a canaleta que vem da mineração, trazendo para as barragens o que nada vale, ou seja, o esgoto da mineração. Temos aí, portanto, a trajetória da riqueza que segue para fora versus o caminho da pobreza, da destruição do meio ambiente e de tudo que está levando ao medo e à morte, com os sucessivos rompimentos de barragens.

Total falta de informação 

Em praticamente todas as casas pelas quais a reportagem do portal Interesse de Minas passou, havia uma unanimidade: a falta de informação e mesmo de orientação sobre como proceder, em caso de emergência, por parte da CSN Mineração.

Como exemplo, muitos citavam o caso da casa alugada no bairro Residencial Gualter Monteiro, onde chegou a funcionar um Centro de Referência da empresa, cuja placa ainda se encontra na fachada, mas que está fechada desde o ano passado.

casa csn bairro residencial
Moradores afirmam que Centro de Referência da CSN, localizado no bairro, está fechado desde 2018
(Foto: Patrícia Adriely)

Em relação à falta de informação por parte da empresa, Sandoval ressalta que os moradores não estão solicitando nenhum favor e vantagem à CSN, mas sim exigindo o cumprimento da legislação em vigor.

Afinal, a Lei Federal 12.334, de 2010, que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB), diz, em seu Artigo 4º que: “A população deve ser informada e estimulada a participar, direta ou indiretamente, das ações preventivas e emergenciais”.

A única iniciativa citada por moradores em relação à segurança foram ações simuladas de emergência e evacuação realizadas pela Defesa Civil e pela CSN na região de risco.

VIDA EM FAMÍLIA

Bastidores de um almoço de domingo

A convite de moradores, a reportagem do portal almoçou, no domingo de Carnaval, com uma das famílias que vivem em um dos bairros da região de risco em Congonhas.

No cardápio, o menu estava completo: arroz, churrasco, salada, cerveja, refri, sobremesa e… muita, muita conversa sobre o novo cenário criado em torno dos riscos da barragem.

Além dos filhos que vieram de fora, em função do feriado prolongado, havia diferentes “personagens” de um mesmo enredo no quintal onde era servido o churrasco:

  • A mãe, muito preocupada, não parava de falar dos riscos;
  • A filha tentava explicar que a situação não era tão grave;
  • O marido da filha, funcionário da CSN, achava um exagero as atitudes da sogra, que chegou a ir para a entrada da empresa para protestar;
  • A outra filha argumentava: mas a briga não pode ser com o motorista da empresa (cujo ônibus foi apedrejado no bairro);
  • O outro genro, que pedira demissão da CSN há poucos dias, lembrava que havia outras opções de emprego para ele, como um cargo melhor na Vale;
  • Mais velhos de todos, o pai criticava as sirenes colocadas pelas empresas, que não serviriam para nada na hora do sufoco.

Diferenças de opiniões à parte, todos concordavam que a situação no geral era mesmo de apreensão e sobressalto.

Para ilustrar, passaram para a reportagem um áudio que viralizou no WhatsApp e causou pânico, no qual uma mulher não identificada, que supostamente estava em Itabirito, alertava sobre um rompimento de barragem em Congonhas, que “iria ocorrer dentro de no máximo duas horas”.

Áudio falso alertava sobre rompimento de barragem
(Fonte: divulgação/WhatsApp)

No instante em que a mensagem começou a se espalhar pelos celulares, por volta das 10 da noite, muitos moradores, especialmente os mais jovens, logo duvidaram de sua veracidade, em especial por “antecipar”, em duas horas, o suposto rompimento.

Mas, pelo sim, pelo não, diante do clima de pavor, não foram poucos os que saíram de suas casas, muitos de pijamas e camisolas, e partiram em busca de pontos mais altos.

DECLARAÇÕES OFICIAIS

Confira os posicionamentos da prefeitura e da CSN

Em meio ao agravamento da situação das barragens em Minas e ao crescente temor de milhares de moradores de Congonhas, a prefeitura municipal tem procurado intensificar o diálogo com a CSN Mineração, apesar das dificuldades de formalizar os entendimentos.

O prefeito Zelinho, por exemplo, confirmou que foi contactado pela empresa para ser comunicado sobre os investimentos da companha para modernizar a mineração e extinguir a prática do armazenamento de resíduos em barragens. Mas ele reclama da falta de oficialização das conversas. “Eles realmente me procuraram para dizer isso, mas não tem nada oficial. É tudo oficioso”.

Diante da série de reclamações dos moradores sobre a falta de informação por parte da CSN e até mesmo de orientações sobre procedimentos de segurança em questões relacionadas ao dia a dia das pessoas, a reportagem do portal Interesse de Minas entrou em contato com a assessoria de imprensa da empresa que, por telefone, afirmou que, no momento, não tinha nada a declarar sobre questões relacionadas à barragem. Na sequência, enviou à redação uma nota para a imprensa

Confira a seguir texto divulgado pela prefeitura sobre os entendimentos com a empresa e a nota enviada pela CSN ao portal.

PREFEITURA DE CONGONHAS

Alternativa para o fim da Barragem Casa de Pedra é anunciada

A Prefeitura de Congonhas tem realizado inúmeras negociações com a Direção da CSN Mineração para busca de solução para a questão da Barragem Casa de Pedra. Em reunião com a empresa, foi anunciada a aquisição de equipamentos italianos para realizar a disposição de rejeitos a seco por empilhamento. Eles irão auxiliar na diminuição de material que é depositado em barragens. Segundo a mineradora, uma parte destes equipamentos já está funcionando.

Uma segunda planta de disposição de rejeito a seco irá entrar em operação no segundo semestre de 2019. Ainda de acordo com a mineradora, ela está trabalhando para que, este ano, 100% da produção da mina passem a ser beneficiados com esta tecnologia a seco.

Como consequência da medida, a CSN também informou ao prefeito Zelinho que encerrará a disposição de rejeitos úmidos em todas as barragens de Mina Casa de Pedra. A barragem, que está posicionada nas proximidades de bairros residenciais de Congonhas, entrará em processo de secagem. Com isto, será descomissionada e, depois, revegetada.

CSN MINERAÇÃO

Nota

A CSN Mineração esclarece que a Barragem de Casa de Pedra, com método de construção a jusante, é segura. A empresa está na vanguarda do tratamento de rejeitos, com investimento de 250 milhões de reais na tecnologia de empilhamento a seco, que já cobre 40% do volume de seus rejeitos, o maior empreendimento do tipo já feito no Brasil. Até o fim de 2019, a empresa estará processando 100% do seu minério a seco, descartando a utilização de barragens para o processo produtivo. A população de Congonhas pode ficar tranquila.

Assessoria de Imprensa da CSN Mineração

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